terça-feira, 22 de março de 2022

Uma Lição Sobre Acumular

("Bag of Coins", Kristy Glas)
Há tempos imemoriais, um fabuloso dragão chamado Caldeirão realizou um pacto com uma jovem aventureira chamada Trin. Sob sua bênção, ela percorreu o mundo conhecendo povos e aprendendo seus costumes. Quando atingiu uma idade na qual viajar já não era possível, fundou uma guilda e tornou-se mecenas para outras jovens intrépidas...

“Chega de ler historinhas, mocinha! Você é a herdeira da Casa Caldeirão. Se não aprender a gerenciar nosso ouro vai fazer o que da vida? Correr atrás de casamento como uma nobre tola?”. Com indisfarçada contrariedade, Lin guardou o volume que lia na estante do escritório da mãe. O problema da menina com os números não era uma questão de entendimento. Ela apenas não via sentido na ânsia em acumular moedas, já que os adultos pareciam perdê-las com tanta facilidade. As histórias que aprendia, por outro lado, eram para sempre e, quanto mais coisas conhecia, mais queria saber.

Lin nunca deixava de se surpreender com o quão aborrecido era o negócio da família, apesar de se tratar de uma guilda de aventureiras. Como fez sua avó e todas as suas antepassadas, a mãe da menina ajudava mulheres de armas a encontrarem trabalhos honestos — claro, em troca de uma parte da recompensa. Durante horas, a pequena dedicou-se aos tediosos livros de contabilidade, avaliando quais contratadas geravam melhores resultados e quais contratantes pagavam melhor pelos serviços.

Quando o sol poente tingia o mundo com matizes alaranjados, a matrona da Casa Caldeirão deu-se por satisfeita. “Sei que nossa guilda estará em boas mãos com você, filha”, orgulhou-se a mãe. Tirando uma moeda de prata da gaveta, continuou: “Este é seu primeiro pagamento. Administre com sabedoria e terá uma vida confortável. Agradecendo, a menina guardou o tesouro em um dos bolsos da calça curta.

Caminhando pelas ruas calçadas, Lin pensava em como sua mãe entendia tudo errado. Se sua antepassada não houvesse viajado pelo mundo, nem haveria uma Casa Galdran, para começar. Divagando, viu-se atraída pelos acordes intermitentes de um bardo, sentado em um caixote de madeira, dedilhando um alaúde de sete cordas.

“Olá, pequena! Você tem cara de quem gosta de uma boa história”, disse o homem em tom amigável. Quando ela confirmou com um meneio de cabeça, ele continuou: “Você conhece a da intrépida Trin, que fez um pacto com o poderoso dragão Caldeirão?”. Com um sorriso travesso, ela respondeu: “Não, o senhor pode me contar?”, estendendo sua moeda de prata.

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