quinta-feira, 24 de março de 2022

O último verão da infância

("The Oak Rocking chair", Sally Rosenbaum)
Ele sempre vestia camisas de mangas compridas e calças sociais, fosse inverno ou verão. Seus longos cabelos, já brancos, eram trançados pela minha avó todas as noites.

Nós passávamos os verões em sua casa. Um simples chalé de madeira numa fazenda de frutas em Fearaland. Os bosques eram perfeitos para brincar, e passávamos os dias correndo e inventando histórias, voltando apenas na hora do jantar.

Lembro-me da única vez que meu avô falou comigo. Foi no verão antes de entrar na primeira série, eu tinha apenas 14 anos. Era um dia quente, e o sabor do suco de amora da minha avó ainda estava na boca. Meus irmãos e eu colocávamos os sapatos para ir brincar, quando uma voz rouca desconhecida falou meu nome.

"Harel", a palavra quebrou o silêncio e nos obrigou a virar. Ele estava com os olhos arregalados olhando o horizonte. Com urgência, ele me disse: "não brinque com as crianças dos humanos".

"Sim, vovô". Tentei entender como descobrira que eu e aquele menino ruivo havíamos trocado sorrisos no dia anterior.

Voltamos para jantar pouco antes do amanhecer. Sujo de terra, decidi me trocar antes de comer. No caminho de meu quarto, o último do corredor, passei pela porta do de meus avós. Curioso, espiei pelo vão entreaberto.

Meu avô estava de frente para o espelho, apenas de calça. Suas costas eram uma massa de cicatrizes de queimaduras. Cobrindo ombros e braços também, a visão da pele ressecada e enrugada fez meus olhos se arregalarem. Suei frio. Então eu vi.

Nos seus pés, no chão, estava meu amigo ruivo, com a cabeça estranhamente separada do corpo. Meu avô segurava a ensanguentada Hjerta-spisa, "aquela que se alimenta de corações", a espada da família. Ele me viu pelo espelho.

Não lembro do que aconteceu depois. Lembro de estar ajoelhado no chão ao lado dele, meu avô caído de costas e tentando respirar. Lembro de ouvir ele engasgar no sangue do profundo corte em sua garganta. Lembro do abraço de minha avó, dizendo que eu não precisava ter visto aquilo, ao me tirar do quarto.

Hoje os humanos não moram mais nesta terra. Eles não vêm aqui. Por medo, creio eu. Mas sempre digo para meus filhos, "são eles quem vocês devem temer".

Nenhum comentário:

Postar um comentário